Vibe Coding: Velocidade ou Ilusão?

Vibe coding promete velocidade, mas será que entregar tudo para a IA — design, UX, testes e decisões — realmente gera valor? Compartilho minha experiência e por que times multidisciplinares ainda fazem toda a diferença.

Vibe Coding: Velocidade ou Ilusão?

A IA está cada vez mais avançada para o desenvolvimento de código. Empresas vêm aumentando seu ritmo de trabalho consideravelmente com o desenvolvimento de novos SaaS a jato utilizando vibe coding. Mas será que não estão acelerando da maneira errada?

Hoje, com plataformas como Lovable e Bolt — e até IDEs com Copilot e Claude Code —, empresas têm delegado a responsabilidade do desenvolvimento de uma Prova de Conceito ou MVP para um único profissional criar através de uma tela de chat. A pergunta que fica é: será que isso realmente traz velocidade para as entregas de valor? Mesmo essas entregas sendo POCs ou MVPs?

Minha Experiência com Vibe Coding

Como experiência pessoal, tenho desenvolvido um software de gestão para um familiar utilizando somente vibe coding. E realmente, sou capaz de criar coisas rápidas e simples em minutos, apenas descrevendo o que eu quero através do prompt. Mas será que estou sendo realmente efetivo?

Quando utilizo essas plataformas, percebo que entrego para a IA não somente o desenvolvimento, mas também a forma de pensar em como o sistema deve funcionar: o design, o UX e até mesmo os testes. Por muitas vezes, ao pedir uma única funcionalidade, a IA adiciona mais duas que muitas vezes acho interessantes, deixando o sistema cada vez mais complexo.

Esses dias fiz uma reunião com meu familiar e apresentei o software. Na minha cabeça, estava ótimo — cheio de funcionalidades e fácil de usar. Porém, ao explicar o sistema, comecei a perceber que as coisas só faziam sentido para mim. Meu familiar ficou cheio de dúvidas, não sabia como utilizar, e o mais básico que o sistema deveria fazer, ele não fazia.

Resultado: sistema sem uso, difícil e sem nenhuma aplicabilidade para o que meu familiar precisava. Voltou para a boa e velha planilha de Excel que já estava acostumado.

O Problema da Indústria

Venho percebendo que na indústria existe esse mesmo problema: pessoas de negócio ou desenvolvedores criando seu próprio sistema ponta a ponta, que só faz sentido para eles e na cabeça deles.

A verdade é uma só: o que mais importa no desenvolvimento de software nunca foi a escrita de código, e sim o processo pelo qual o software passa até chegar à mão do usuário.

Ter um time multidisciplinar realmente faz a diferença. É necessário:

  • Um dono do produto que entende o que o cliente quer e está frequentemente em contato com ele.
  • Um UX/UI que, entendendo a dor do cliente, organiza as ideias para facilitar o uso.
  • Um arquiteto que explora de forma simples e escalável como o software deve evoluir.
  • Desenvolvedores focados nas tecnologias que vão precisar empregar, tanto no frontend quanto no backend.
  • Um QA que entende o que o dono do produto deseja e testa o software quando finalizado, atestando que está operacional.
  • Um time de DevOps que garante entregas contínuas em um ambiente escalável e de fácil manutenção.

No final do dia, percebemos que desenvolvimento de software nunca foi sobre escrever código, mas sim sobre como resolver problemas da melhor forma através de várias cabeças pensantes — cada uma em sua especialidade — juntas, construindo não o sistema que o usuário espera, mas o sistema que resolve o problema do usuário de forma eficiente.

Então Devemos Negligenciar a IA?

Claro que não. Ela pode impulsionar cada etapa se usada da maneira correta.

Imagine o dono do produto deixando de ficar horas e horas escrevendo histórias para focar nas conversas e no acompanhamento com o cliente. Com a IA, ele pode pegar todo o material de reuniões e atas e agilizar a escrita das histórias, ficando somente com a tarefa de analisar o resultado.

Imagine o UX/UI investindo mais tempo analisando a experiência do cliente e realizando testes com ele, em vez de perder tempo criando protótipos e wireframes do zero.

Imagine o arquiteto parando de gastar tempo criando diagramas em todo tipo de formato para focar na arquitetura mais eficiente para o problema.

Imagine os desenvolvedores deixando de perder tempo escrevendo CRUDs e testes unitários para pensar realmente nas regras de negócio e em como encaixá-las no software de forma a garantir fácil manutenção e evolução.

Imagine o QA parando de perder tempo escrevendo cenários de testes para começar a focar em testes automatizados e nos testes regressivos manuais — concentrando-se no que tem mais valor: o software inteiramente funcional.

Imagine o DevOps parando de escrever manualmente playbooks de Kubernetes para focar em entregar um ciclo de entrega contínua reutilizável e flexível.

Conclusão

A IA potencializa ainda mais o desenvolvimento quando empregada de forma eficiente, onde cada profissional deixa de focar no operacional e foca no que realmente traz valor. O software talvez demore um pouco mais do que se uma única pessoa fizesse tudo? Talvez. Porém, vale a pena sacrificar a eficiência e a utilidade apenas para entregar um software bonito que não resolve a dor do usuário — feito somente pelo que a IA, o profissional vibe coder e o cliente acham que deveria ser?